Boato, tão letal quanto uma bala perdida

O ouvir dizer e o andam dizendo por aí matam

 

Na visão do celebrado escritor Érico Veríssimo o boato “é uma espécie de enjeitadinho que aparece à soleira duma porta, num canto de muro ou mesmo no meio duma rua ou duma calçada, ali abandonado não se sabe por quem; em suma, um recém-nascido de genitores ignorados”. Ai vem alguém que “acha o engraçadinho ou monstruoso, toma-o nos braços, nina-o, passa-o depois ao primeiro conhecido que encontra, o qual por sua vez entrega o inocente ao cuidado de outro ou de outros, e assim o bastardinho vai sendo amamentado de seio em seio ou, melhor, de imaginação em imaginação”.  Vai além: “…e em poucos minutos cresce, fica adulto – tão substancial e dramático é o leite da fantasia popular – começa a caminhar pelas próprias pernas, a falar com a própria voz e, perdida a inocência, a pensar com a própria cabeça desvairada, e há um momento em que se transforma num gigante, maior que os mais altos edifícios da cidade, causando temores e às vezes até pânico entre a população, apavorando até mesmo aquele que inadvertidamente o gerou.” Concordo com ele e explico. O boato é uma arma perigosa. Destrói reputações, famílias, ceifa vidas, mas tem muita gente por ai amamentando o enjeitado, fazendo-o crescer. Pois é. A coisa é muito seria, mas há os que os divulgam sem se preocupar com as consequências. Vamos aos fatos…

No dia 3 de maio de 2014 a dona de casa Fabiane Maria de Jesus foi espancada até a morte por causa de um boato veiculado via Facebook. Isso aconteceu no bairro Morrinhos III, em Guarujá, no estado de São Paulo. Um idiota espalhou que uma mulher parecida com ela estava sequestrando crianças na comunidade. Foi o suficiente para que outros babacas se juntassem para o linchamento. Detalhe: Fabiane era inocente e não houve sequer um registro de desaparecimento de crianças naquele município.

No  dia 5 de abril do ano passado uma babaquice semelhante por pouco não terminou em tragédia no município de Araruama, na Região dos Lagos fluminense. A polícia chegou a tempo de evitar que um casal fosse barbarizado por causa de um boato viralizado via WhatsApp. Idiotas espalharam que uma criança teria sido sequestrada e que um homem e uma mulher seriam os responsáveis pelo suposto crime. As vítimas da irresponsabilidade foram agredidas dentro de um carro por uma multidão e um dos “justiceiros” chegou a atear fogo no veículo. Se a policia não aparece a tempo a barbaridade teria sido consumada. Nesse caso também não houve caso de desaparecimento de criança.

Há uns 15 dias surgiu na Baixada Fluminense mais uma babaquice do gênero: “tem um grupo de bruxos sequestrando crianças para fazer sacrifícios”. Isso foi em São João de Meriti e mais uma vez os “justiceiros das redes sociais” decidiram agir. Por sorte dos acusados a polícia apareceu e está trabalhando para identificar os babacas.

Já na semana passada, na localidade de Santa Dalila, em Magé, um ou mais babacas deram eco ao boato de que dois homens estavam circulando por lá, também para roubar crianças, inclusive cometendo a irresponsabilidade de indicar o modelo e a cor do carro usado. Não há nenhuma ocorrência policial nesse sentido nas duas delegacias do município.

As lendas urbanas ganham as redes sociais todos os anos. Vocês se lembram da mulher que andava por aí com uma tesoura cortando cabelos nas ruas? Pois é. Essa é uma delas. E a Kombi que parava nas proximidades das escolas para pegar criancinhas? Essas idiotices existem, estão por aí, mas dar crédito a babaquices nos torna todos iguais.

Gente, muito cuidado. Não espalhe informação não confirmada, pois o boato é uma espada afiada nas mãos de um cego, um perigo mortal e eu não vou falar bonito como Érico Veríssimo. Irei direto ao ponto. Boato é coisa de babaca. É como uma bala perdida: sempre atinge um inocente.

Comentários:

  1. Sabe porque isso acontece, sr. Elizeu? Pois o povo brasileiro, infelizmente, é um povo ignorante. Se vier um energúmeno com algum esboço de lábia e disser que comer fezes faz bem à saúde, vai ter uma legião de gente comendo de seu próprio excremento. É igual a esse papo de que maçonaria é coisa do diabo, dos illuminati, dos reptilianos, da nova ordem mundial… Baboseiras que escuto há tempos e que nunca se concretizaram, mesmo porque quem usa um pouco de epistemologia em seus cérebros sabe que isso tudo é mentira.

    Sabe se algum site ou veículo de comunicação sério noticiou algum dos ocorridos acima? Se não, é MENTIRA. Aproveitam-se do ódio, do revanchismo e do ressentimento das pessoas pelos problemas que vivemos para pregar soluções tão fáceis quanto absurdas.

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