Dos efeitos da palavra maldita (uma reflexão de domingo)

“Tão pobres somos que as mesmas palavras nos servem para exprimir a mentira e a verdade”. O que o pensamento da poetisa portuguesa Flor Bela de Alma da Conceição Espanca (seu nome de batismo) tem a ver com o assunto sobre o qual vou convidá-los a refletir agora? Muito, pois há alguns dias surgiu nos corredores do poder em Magé (terra do “ouvi dizer”, do “andam dizendo por ai” e do “estou sabendo que...”) um boato covarde e absurdo que poderia ter destruído a vida de um respeitável senhor, homem de integridade impar e demolido o que uma jovem dedicada a seu trabalho vem buscando construir.

Foi algo, que, inclusive, me tentaram “vender” como verdade absoluta e até me desafiaram a veicular, como se aqui tivéssemos tempo a perder com fofoca ou com quem em vez de trabalhar fica inventando besteiras sobre a vida alheia, com o intuido de derrubar quem não lhe dá moleza ou lhe exige seriedade e dedicação ao trabalho. O pior minha gente, é que esse desafio para que déssemos eco a essa maldade, veio de pessoas com grande responsabilidade social.

Façamos primeiro a nossa parte (uma reflexão de domingo)

“As mais altas árvores são oriundas de minúsculas sementes”. Essa frase do médium Chico Xavier tem muito a ver com o assunto sobre o qual vou convidá-los a refletir nesse momento. As grandes coisas, as causas mais nobres, as maiores vitórias partem sempre de um pequeno gesto, de uma ação mais simples. Alguém, por menor que se imagina, fez lá atrás a sua parte. Despretensiosamente plantou sua sementinha e a árvore se fez frondosa, concretizando um grande resultado a partir de um gesto tão simples. É sobre isso que gostaria que refletíssemos hoje.

Duas professoras trabalham numa mesma escola e em classes semelhantes. Os alunos têm quase que idades iguais e as mesmas dificuldades em aprender. As duas profissionais moram longe do local de trabalho, usam dois ônibus para chegarem à escola e, no final do mês, encontram em suas contas e contracheques os mesmos valores. A única diferença entre as duas está no resultado do trabalho aplicado: os alunos da professora A estão evoluindo melhor que os da professora B. “Onde você está querendo chegar, Elizeu?” Talvez você indague daí. A resposta nos remete ao primeiro parágrafo, nos leva a importância de cada um fazer a sua parte.

Não somos melhores que ninguém (uma reflexão de domingo)

É incrível, mas toda e qualquer noticia que veiculamos sobre assuntos relativos a educação de Magé o espaço destinado a comentários se transforma em um campo de batalha, com concursados e contratados se digladiando como se ferozes inimigos fossem. Que coisa feia, gente! Estão todos no mesmo barco e, tirando o regime jurídico que os separam, são todos iguais. Exercem a mesma função, trabalham na mesma rede de ensino, tem a mesma carga horária e lecionam as mesmas matérias. Além do mais, eu não posso me julgar melhor que o meu vizinho só porque o meu emprego é mais garantido que o dele.

O setor de educação deveria funcionar, creio eu, com mais cordialidade, mas basta iniciar o ano letivo para o disse que disse começar: “Você viu aquela diretora? É uma incompetente. Só está lá porque é amiga de fulano...” “E aquela professora novinha que foi contratada? Está se achando só porque foi indicada por aquele cara...”

As duas faces da legalidade (uma reflexão de domingo)

A semana que passou foi de grande aprendizado para mim. Descobri que uma parcela do público, ainda que pequena, só gosta do meu trabalho se o texto não lhe mostrar a verdade da qual não quer saber. Isso me fez perceber um certo indiferentismo moral, quando eu pensava tratar apenas do indiferentismo intelectual. Dói em mim dizer isso. Acreditem. Não há nenhuma satisfação em mim no momento em que escrevo esse artigo e os convido a refletir sobre isso, mas preciso fazê-lo, dividir essa preocupação com as milhares de pessoas que me acessam diariamente e acompanham o meu trabalho de uma forma tão participativa que me faz íntimo de todos vocês. Essa reflexão, meus amigos, os remeterá a um assunto que está me cansando e talvez a todos: o polêmico concurso realizado pela Prefeitura de Guapimirim em 2001.

“Me admira muito um jornalista conceituado como você se prestar a esse serviço”. Me escreveu ontem uma pessoa indignada com os esclarecimentos que dei nos últimos dias sobre a “vitória” dos concursados de 2001 que chegaram a tomar posse e depois foram demitidos. Me prestar a que serviço, cara pálida? O de lhes mostrar a verdade, enquanto muitos lhes mentem descaradamente? Se errei em lhes explicar o teor do despacho judicial que determinou que a Prefeitura cumpra o acórdão de coisa já transitada em julgada e reintegre todos os concursados de 2001 dentro do numero de vagas do edital, “desde que não exonerados em segundo procedimento administrativo”, nunca fiz nada certo na vida, pois o que lhes mostrei é cristalino e foi reiterado num segundo despacho do mesmo juiz, sobre a mesma coisa transitada em julgado e que, em bom português, quer dizer que a grande maioria dos demitidos não será reintegrada, porque fora exonerada no segundo procedimento. Acho que errei de novo, pois muitos me criticaram ontem por ter revelado o segundo despacho - dado em embargo de declaração impetrado por um demitido no segundo procedimento administratibo - e houve até quem me atacasse porque classifiquei como irregular o fato de uma pessoa estar na milésima posição e ser puxada para entre os 50 primeiros colocados.

A jabuticabeira de minha infância

Um dia imaginei ser o mundo um simples fundo de quintal e, mais ainda, todinho meu. Sentia-me um “rei” e “reinava” no pomar da Fazenda União - na zona rural de Mirai, lá nas Minas Gerais -, quando passava alguns dias com meus avós maternos, Maria e Isidro Gomes Monteiro.

Meu “trono” era uma frondosa jabuticabeira, uma das muitas que cresceram nesse meu mundinho particular, compartilhado com meus primos Maria Eunice, Berenice, Cirene, Daniel e Jonas. Na verdade, a árvore era muito mais que meu “trono”. Era o próprio “castelo”, o lugar onde um menino sonhador sentia-se seguro para dar asas á imaginação e deixar cantar livre o passarinho que acreditava morar em seu peito.

“Bença, padim”

Não sei quantos habitantes havia em Mirai durante a minha infância, mas uma coisa era certa, todos - não importa se criança ou velho - tínhamos um “afilhado” em comum: Joventino, um inocente que a todos saudava com um "bença, padim!" Quando eu contava seis ou sete anos de idade, Joventino já passava dos trinta, mas eu também era chamado de "padim" e sustentava longos diálogos com o “afilhado” que pedia bençãos a todos nós.

 Joventino não tinha morada certa. Vivia nas ruas, visitava todas as casas e sempre era bem recebido por uma platéia atenta às suas histórias. Era o deficiente mental mais lúcido que conheci. Tratava a todos com respeito e tinha religiosidade: rezava do lado de fora da Matriz de Santo Antônio, porque lá dentro o padre Ernesto não o deixava ficar, mas sua entrada era franca na igreja protestante, onde entoava uma música sacra tradicional das Assembleias de Deus: "Foi na cruz, foi na cruz, onde um dia eu vi meus pecados castigados em Jesus..."

Minha escola preferida

Foi no Grupo Escolar Dr. Justino Pereira onde aconteceu meu primeiro encontro com as letras. Lá estudei durante quatro anos. Tive a felicidade de conhecer a austeridade do professor Álvaro e o carinho de dona Marieta, servente que distribuía a merenda e tratava a todos nós como netos, dando-nos muito mais que sustento para o corpo: oferecia-nos carinho e o amor que alimentava nossa alma. Lá fui premiado com a dedicação das professoras Maria Ester Miranda, Maria do Carmo, Maria Celeste e Maria das Graças Loures Esperança, seres maravilhosos que Deus colocou em minha vida para me apontarem o caminho a ser seguido.

Também foi nesse templo sagrado que conheci Rosângela, o primeiro amor de um menino tímido que guardava no peito os versos que compunha e não sabia por no papel, pois as palavras me pareciam importantes demais para ganharem forma nas minhas garatujas. Da menina, tão retraída como eu, ainda me lembro do olhar e essa recordação me assegura que o sentimento era recíproco e, a nossa maneira, verdadeiro.

Dona Lurdes

Morava com meus pais e 10 irmãos na Rua Senhor dos Passos, 74, a Rua da Cadeia. Não raramente ouvia os gritos de um ou outro “ladrão de galinha” durante o castigo imposto pela polícia da época aos miseráveis pegos por pequenos crimes, mas tratados como grandes ameaças à sociedade. Escutava aquilo e até achava normal o corretivo aplicado pelos soldados. Era um menino de cinco ou seis anos de idade e morria de medo da polícia: pensava que os policiais - envergando vistosas fardas cáquis - estivessem acima do bem e do mal; que podiam surrar quem bem entendessem. Talvez tenha sido por isso que, como jornalista, denuncie tantos casos de violação aos direitos humanos.

Guardo muitas lembranças dos vizinhos. Principalmente das broncas do Sr. Braga, quando eu, menino levado, deixava cair no quintal alheio as pedras que, lançadas de uma atiradeira, teimavam em acertar o alvo errado. Porém, tenho recordação toda especial de dona Lurdes, o amor personificado. Sorriso como o dela só mesmo os de minha mãe, dona Neuza e de minha avó emprestada, dona Elisa, que morreu sem rever esse “neto” ingrato.

A crônica da saudade

Às vezes penso ter uma pena mágica. O que com ela transcrevo tem a condição de trazer-me de volta ao passado, como se o já vivido ainda me fosse presente. Às vezes penso ser encantada a vidraça de minha janela preferida. O que dela vejo é bem o que quero rever: as ruas pequeninas do meu Mirai, a pracinha e a igreja que para mim tinha a torre mais alta do mundo; a escola de minhas primeiras letras, o primeiro poema e as brincadeiras no recreio. Ainda vejo rolar a bola com a qual driblava a incrível realidade crua; o céu onde empinava sonhos em forma de papagaio, minha liberdade de pombinha branca...

Olho minha cidade de uma vidraça distante, do último andar... Sonho, canto, tenho saudades e quero novamente o silêncio de suas ruas, a poesia dos barquinhos oscilantes nas poças d água que a chuva de ontem deixou, os circos mambembes e as pantomimas cheias de inocência dos palhaços de outrora.

Os jardins do Sr. Osório

Na minha infância feliz, lá no meu universo chamado Mirai, vivi grandes aprendizados. Aprendi com a austeridade do professor Álvaro, com o brilho espiritual de dona Marieta, com as lambadas do cinto do meu pai e, principalmente, com a dedicação das professoras Maria Ester Miranda, Maria do Carmo, Maria Celeste e Maria das Graças Loures Esperança, mas verdadeiras lições de vida me foram dadas por um jardineiro, o funcionário público que cuidava dos jardins da pracinha existente em frente ao prédio da Prefeitura, fazendo da sua a função mais nobre.

Nunca soube o nome completo do homem que dispensava um carinho todo especial à pracinha que meus olhos de menino sonhador viam como um bosque encantado. Sei apenas que ele chamava-se Osório e a molecada o “batizara” de Sr. "Osorinho”, por ser ele só um pouquinho mais alto que os meninos que como eu faziam daquela praça o local preferido nas tardes miraienses.