A jabuticabeira de minha infância

Um dia imaginei ser o mundo um simples fundo de quintal e, mais ainda, todinho meu. Sentia-me um “rei” e “reinava” no pomar da Fazenda União – na zona rural de Mirai, lá nas Minas Gerais -, quando passava alguns dias com meus avós maternos, Maria e Isidro Gomes Monteiro.

Meu “trono” era uma frondosa jabuticabeira, uma das muitas que cresceram nesse meu mundinho particular, compartilhado com meus primos Maria Eunice, Berenice, Cirene, Daniel e Jonas. Na verdade, a árvore era muito mais que meu “trono”. Era o próprio “castelo”, o lugar onde um menino sonhador sentia-se seguro para dar asas á imaginação e deixar cantar livre o passarinho que acreditava morar em seu peito.

A relação com a jabuticabeira da minha infância não era limitada à preferência por aqueles deliciosos e pequeninos frutos, os quais devorava enquanto, empoleirado num galho generoso, tomava conta daquele meu “reino”. Entre um fruto e outro deixava os sonhos fluírem, ganhando o tamanho necessário para uma realidade conveniente.

Foi refugiado nesse “castelo” que vi surgir a poesia que insiste acompanhar-me vida afora, florescendo em meu interior como flores de uma eterna primavera. Porém, o tempo é cruel. Passou rápido demais, levando para sempre minha árvore-abrigo, fazendo-me descobrir que a realidade não tem o mel das jabuticabas e que a vida cá fora – por culpa dos homens que teimam em brincar de reis, bancando os senhores da raça humana, a qual fazem questão de subjugar – às vezes tem gosto de fel.

Bom seria se eu ainda tivesse o abrigo daquele “castelo” que durante toda a minha infância guardou meus segredos e dimensionou os meus sonhos.

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