A crônica da saudade

Às vezes penso ter uma pena mágica. O que com ela transcrevo tem a condição de trazer-me de volta ao passado, como se o já vivido ainda me fosse presente. Às vezes penso ser encantada a vidraça de minha janela preferida. O que dela vejo é bem o que quero rever: as ruas pequeninas do meu Mirai, a pracinha e a igreja que para mim tinha a torre mais alta do mundo; a escola de minhas primeiras letras, o primeiro poema e as brincadeiras no recreio. Ainda vejo rolar a bola com a qual driblava a incrível realidade crua; o céu onde empinava sonhos em forma de papagaio, minha liberdade de pombinha branca...

Olho minha cidade de uma vidraça distante, do último andar... Sonho, canto, tenho saudades e quero novamente o silêncio de suas ruas, a poesia dos barquinhos oscilantes nas poças d água que a chuva de ontem deixou, os circos mambembes e as pantomimas cheias de inocência dos palhaços de outrora.

A roda d água

● Elizeu Pires

Fui uma criança feliz, um menino levado como a maioria dos moleques que davam vida ao lugar onde nasci. Tinha uma jabuticabeira só minha e, de sobra, podia correr livre pelas ruas quase sem movimento lá de Mirai. Andava descalço e nem me importava com as pedras que ainda hoje pavimentam aquelas ruazinhas que a mim pareciam grandes avenidas, vias próprias para o escoamento dos meus sonhos.