
A ex-governadora e pré-candidata ao Senado pelo Rio de Janeiro Benedita da Silva (PT) reagiu à declaração do candidato ao governo do Estado pelo PL, Douglas Ruas, em entrevista ao Balanço Geral, da Record. Ruas afirmou que não faz campanha em comunidades porque, segundo ele, quem consegue fazê-lo tem algum tipo de acordo com criminosos.
Moradora do Chapéu Mangueira por 58 anos, Benedita diz que a afirmação não corresponde à realidade de quem conhece e frequenta as comunidades do Rio.
“Eu vivi 58 anos no Chapéu Mangueira. Eu conheço a favela por dentro. E uma coisa eu posso dizer: a favela é lugar de povo trabalhador, de gente que acorda cedo, que cria tem sonhos, que trabalha, que estuda, que tem fé e que luta todos os dias para viver com dignidade”, afirma.
Benedita diz que mantém até hoje uma relação próxima com as comunidades – e não só em anos de eleição.
“Freqüento igrejas, participo de reuniões de mulheres, encontro lideranças comunitárias e desenvolvo ações sociais e nunca precisei pedir autorização de ninguém”, disse.
Para Benedita, associar a entrada em uma comunidade a um suposto acordo com criminosos é um desrespeito por quem vive e trabalha nesses territórios, além de “invisibilizar” seus moradores.
“Quando se fala de comunidade, é preciso lembrar das pessoas que vivem ali. São trabalhadores, famílias, comerciantes, profissionais de saúde, professores, religiosos, mulheres, crianças. E eles querem ser ouvidos. A violência não pode apagar a existência dessas pessoas”, afirmou
A trajetória de Benedita, diferentemente de Douglas Ruas, está diretamente ligada à organização comunitária. Ainda nas décadas de 1960 e 1970, ela reuniu mulheres no Chapéu Mangueira para discutir as condições de vida da população e participou da criação do Departamento Feminino da Associação de Moradores. Também atuou na alfabetização de crianças e adultos na escola comunitária da favela.
“Eu não cheguei à política porque alguém me levou para a favela. Eu saí da favela para a política. Foi ali que aprendi a lutar, que organizei mulheres, que alfabetizei pessoas, que aprendi a ouvir e que construí minha vida pública. Por isso, quando alguém fala da favela sem conhecer sua gente, eu sinto que estão apagando a história de milhões de pessoas”.
A candidata defende políticas de segurança que enfrentem o crime sem transformar as comunidades inteiras em territórios de suspeição. “Segurança se faz com inteligência, tecnologia, integração entre as esferas de poder, policiais bem pagos e bem treinados. O Estado tem que ter presença permanente nas comunidades porque é a sua ausência que leva ao domínio dos bandidos nos territórios”, afirma. Ele lembrou ainda que, quando foi governadora, o assassino de Tim Lopes, Elias Maluco, foi preso sem que necessidade de dar um tiro sequer. As falas de Benedita foram feitas durante conversas com eleitores durante panfletagem que fez nesta quarta-feira, 19, no Centro do Rio.