Uma reflexão de ano novo: Talvez com o último alento

“…Porém, tudo muda: com o último alento podes de novo começar”, Berthold Brecht

● Elizeu Pires

“Tudo muda. De novo começar podes, com o último alento. O que acontece, porém, fica acontecido: e a água que pões no vinho, não podes mais separar. Porém, tudo muda: com o último alento podes de novo começar.”

As palavras do dramaturgo, poeta e encenador alemão Eugen Berthold Friedrich Brecht nos diz diretamente que sempre há tempo para recomeçar. É fato que quando misturamos água ao vinho estragamos os dois, pois ambos ficam inservíveis. Pois é essa fusão infame que temos feito durante anos e anos, misturando água com tudo e fumaça tóxica com o ar. Separar não dá mais, mas podemos, como o último alento, deixar de fazê-la, para que possamos ter água e ar consumíveis.

Em 2014 o Sudeste teve de acordar, na marra, para uma grande realidade: os sistemas Cantareira e Paraíba do Sul – responsáveis pelo abastecimento de água em cidades paulistas, mineiras e fluminenses – operaram muito abaixo do nível, pois o homem andou misturando pés com mãos, desmatando indiscriminadamente e desviando nascentes, fazendo a fusão da ganância com a irresponsabilidade.

O abastecimento ficou comprometido e rios quase morreram de sede. Dessa vez a natureza reagiu, lutou pela própria vida e voltou a respirar, mas o que os homens, mesmo despertados pelo susto há 11 anos fizeram de lá para cá? A resposta está em nós, talvez contida no último alento.

Então pensemos nisso enquanto é tempo. Feliz ano novo! Que deixemos de lado as fusões mortais e recomecemos uma caminhada pela vida, ainda que seja uma espécie de último alento.