Estudo mostra que segurança pública é o principal desafio do Rio

Estudo da Casa Mundo Latam reúne dados quantitativos, entrevistas com especialistas e referências sobre transformação urbana para compreender os desafios e as potencialidades do Rio de Janeiro

Conhecido internacionalmente por suas paisagens, sua produção cultural e seu estilo de vida, o Rio de Janeiro também convive com desigualdade territorial, problemas de mobilidade e insegurança. Dados reunidos pelo estudo Transforma Cities, da Casa Mundo Latam, consultoria latino-americana especializada em inteligência de mercado, comportamento e tendências de consumo, mostram que 99% dos entrevistados apontam a segurança pública como o principal fator que prejudica a cidade.

O Transforma Cities, disponível em: https://casamundolatam.com/estudo_transforma_cities , reúne pesquisa qualitativa, dados da pesquisa quantitativa Rio Além da Bolha, entrevistas com 13 profissionais de áreas como inovação, cultura, políticas públicas, empreendedorismo, sustentabilidade e direito à cidade, além de referências nacionais e internacionais sobre transformação urbana. O objetivo é compreender como o conhecimento sobre os territórios pode orientar políticas públicas, projetos privados e ações sociais mais humanas, eficientes e sustentáveis.

O estudo propõe olhar para o Rio de Janeiro como um organismo vivo, formado por pessoas, histórias e relações. A partir dessa perspectiva, investiga como o conhecimento sobre os territórios pode contribuir para decisões mais humanas, eficientes e conectadas à realidade da cidade.

Entre os entrevistados, formação e capacitação aparecem como um dos principais desafios para 73%, seguidas pela desigualdade social, mencionada por 70%, e pelo ambiente de negócios, citado por 54%. Os resultados sugerem que, embora a segurança pública seja a principal preocupação da população, os desafios percebidos pelos entrevistados vão além da violência e envolvem fatores estruturais relacionados ao desenvolvimento social, à formação e à capacidade da cidade de gerar oportunidades.

Entre o cartão-postal e a cidade real

O estudo parte de um contraste presente na identidade carioca. De um lado, está o Rio conhecido internacionalmente por sua paisagem, criatividade, patrimônio cultural e vocação turística. A cidade é berço do samba, da bossa nova e do funk, mantém uma economia criativa ativa e ocupa o posto de segundo maior PIB do Brasil.

Do outro, aparece uma cidade marcada por desigualdades. Barreiras físicas e simbólicas separam o Centro, a Zona Sul, a Zona Norte e as favelas, enquanto problemas de mobilidade dificultam o acesso entre as diferentes regiões. O material também aponta a fragilidade da articulação entre poder público, empresas, comunidades e instituições, o que faz com que iniciativas com potencial de transformação permaneçam isoladas e percam força coletiva.

Essa distância entre o Rio conhecido por quem está de fora e aquele vivido diariamente pela população ajuda a explicar por que a cidade ainda encontra dificuldades para transformar sua potência cultural, econômica e criativa em um desenvolvimento mais integrado.

O Transforma Cities também é resultado da trajetória de Adriana Hack, fundadora e diretora executiva da Casa Mundo Latam e Fátima Rendeiro, líder e estrategista da Rendeiro Consult e diretora de Relações com Mercado do Grupo de Mídia do Rio de Janeiro (GMRJ), pesquisando o Rio de Janeiro. Ao longo dos últimos anos, as especialistas vêm desenvolvendo estudos sobre identidade, comportamento e território na capital fluminense, experiência que serviu de base para a construção da metodologia apresentada.

Transformações que já estão acontecendo

Apesar dos desafios, o levantamento mostra que o Rio de Janeiro não está parado. Diferentes iniciativas já atuam na transformação dos territórios por meio da cultura, da educação, da comunicação, do empreendedorismo e da inovação social.

Entre os projetos mapeados estão Redes da Maré, Casa Amarela, Feira das Yabás, Favela Orgânica, Lab Jaca, Gato Mídia, Flup RJ e Afrofunk Rio. Embora tenham formatos e áreas de atuação diferentes, essas iniciativas têm em comum o fato de nascerem do conhecimento sobre os territórios e da participação de quem vive em cada comunidade.

O estudo também analisa iniciativas que vêm transformando a Zona Portuária, como a retirada do Elevado da Perimetral, a implantação do VLT e a chegada de equipamentos culturais, como o Museu do Amanhã e o Museu de Arte do Rio. O Porto Maravalley aparece como parte desse processo de reposicionamento da região como um polo de tecnologia, inovação, moradia e economia criativa.

Na Pequena África, projetos voltados à preservação da memória afro-brasileira e ao fortalecimento do afroturismo mostram como identidade e desenvolvimento econômico podem caminhar juntos. O programa Viva Pequena África, por exemplo, recebeu investimento de R$5 milhões do BNDES para fortalecer a cultura negra e o turismo na região.

Além dos exemplos brasileiros, o Transforma Cities reúne referências internacionais que mostram como as cidades podem transformar desafios históricos em oportunidades de desenvolvimento. Um dos casos destacados é Medellín, na Colômbia, que deixou de ser reconhecida mundialmente pela violência para se tornar referência em regeneração urbana. Segundo o estudo, a transformação foi construída a partir da integração entre mobilidade, cultura, educação e ocupação dos espaços públicos, sempre considerando a identidade e as necessidades dos territórios, demonstrando que compreender a cidade é o primeiro passo para transformá-la.

Quando o conhecimento local orienta decisões

A metodologia do Transforma Cities organiza a transformação dos territórios em quatro frentes. A primeira é mapear o que está acontecendo dentro e fora da cidade, identificando experiências que possam inspirar novos caminhos. A segunda é reconstruir a trajetória do território, considerando seus marcos, desafios e potencialidades. A terceira busca compreender o “DNA” de cada lugar, formado por sua identidade simbólica, cultural e social. Por fim, a metodologia propõe conectar as pessoas e suas experiências aos processos de transformação, reconhecendo quem vive no território como parte central das decisões.

A proposta parte da ideia de que mudanças aparentemente pontuais, como a abertura de um mercado, a revitalização de uma praça ou a criação de um equipamento cultural, podem alterar a dinâmica social e emocional de uma região. Por isso, compreender as relações que sustentam cada território e incorporar a escuta das comunidades ao processo são etapas essenciais para construir transformações mais conectadas à realidade local.

“Não existe uma fórmula única para transformar uma cidade. Antes de pensar em soluções, é preciso entender as pessoas, as relações e a identidade de cada território. Quando esse conhecimento orienta as decisões, políticas públicas, projetos privados e iniciativas sociais têm mais chances de gerar mudanças que façam sentido para quem vive naquele lugar”, afirma Adriana Hack, fundadora e diretora executiva da Casa Mundo Latam.

Para Adriana Hack, experiências internacionais reforçam que a transformação de uma cidade começa muito antes das grandes obras. “O exemplo de Medellín mostra que uma cidade não se transforma apenas com infraestrutura. A mudança acontece quando existe um olhar profundo para os territórios, suas histórias e para as pessoas que vivem neles. Quando diferentes iniciativas passam a dialogar entre si e a população se reconhece nesse processo, a cidade deixa de ser apenas um conjunto de problemas e passa a construir novas possibilidades para o seu futuro”, afirma.

Para Fátima Rendeiro, líder e estrategista da Rendeiro Consult e diretora de Relações com Mercado do Grupo de Mídia do Rio de Janeiro (GMRJ), o principal diferencial da metodologia está em compreender o território antes de propor qualquer transformação. “O Transforma Cities parte de uma premissa simples: nenhuma cidade pode ser transformada sem antes ser compreendida. Cada território tem uma identidade, uma história, relações próprias e necessidades diferentes. Quando escutamos quem vive esses espaços e transformamos esse conhecimento em estratégia, conseguimos construir projetos mais humanos, mais eficientes e com impacto duradouro”.

A cidade também precisa contar suas potências

Outro achado destacado pelo estudo está relacionado à comunicação. Segundo a pesquisa qualitativa Rio Além da Bolha, 83% dos entrevistados acreditam que o Rio de Janeiro deveria comunicar de maneira mais efetiva e consistente os aspectos positivos da cidade.

O dado sugere que a forma como o território é apresentado também influencia a construção de pertencimento e a confiança em seu futuro. Quando o Rio aparece apenas associado aos seus problemas, iniciativas locais, movimentos culturais e transformações positivas deixam de fazer parte da narrativa coletiva.

Para o estudo, comunicar não significa apenas divulgar projetos, mas legitimar mudanças e transformar ações isoladas em histórias compartilhadas pela população. Essa construção pode aproximar comunidades, empresas, instituições e poder público em torno de uma visão comum para a cidade.

“A forma como uma cidade conta a própria história também interfere na maneira como seus moradores se relacionam com ela. Quando a comunicação destaca apenas os problemas, deixa de reconhecer iniciativas, pessoas e movimentos que já estão transformando o território. Dar visibilidade a essas potências ajuda a fortalecer o pertencimento e a construir uma visão mais positiva e possível para o futuro do Rio”, finaliza Adriana.

O Transforma Cities será apresentado por Fátima Rendeiro, líder e estrategista da Rendeiro Consult e diretora de Relações com Mercado GMRJ, durante o painel “Territórios, Identidade e Vocação: o futuro nasce do lugar”, no Rio Innovation Week 2026.

Sobre a consultoria de inteligência de mercado Casa Mundo Latam

A Casa Mundo Latam é uma consultoria latino-americana de inteligência de mercado, comportamento e tendências de consumo especializada na América Latina. Fundada por Adriana Hack, uma das principais referências em pesquisa qualitativa e análise de comportamento no Brasil, a empresa atua há mais de 25 anos transformando movimentos culturais, hábitos de consumo e mudanças sociais em insights estratégicos para marcas e organizações.

Com experiência em projetos para empresas como Coca-Cola, Natura, Nestlé, Ambev, L’Oréal, Diageo e Raízen, a Casa Mundo Latam combina metodologias qualitativas e quantitativas, leitura cultural e visão estratégica para apoiar decisões de negócio. Mais do que produzir pesquisas, a consultoria traduz tendências globais para a realidade latino-americana e transforma dados em inteligência acionável, ajudando empresas a compreender consumidores, antecipar movimentos de mercado e identificar oportunidades de crescimento na região.