Trens de transporte urbano: Do charme do passado à tortura no presente

●Dr. Henrique Paes

O transporte ferroviário começou em 1854 com a primeira ferrovia inaugurada por Dom Pedro II no Rio de Janeiro. Uma elegância para aquela época que tinha uma malha ferroviária de 14,5 Km, conhecida como Estrada de Ferro de Mauá. O sistema ferroviário atual, no Rio de Janeiro, tem uma malha de 270 Km e 104 estações, delas somente 23 têm banheiros.

São transportadas diariamente cerca 400 mil pessoas nos vagões que correm nos trilhos do estado. Como se vê, de lá para cá cresceu muito em extensão de trilhos, mas não consegue oferecer um serviço minimamente digno para os seus usuários. Cresceu e degenerou. Quem dera que, assim como aumentou a extensão da sua malha, também pudesse melhorar a qualidade do serviço que, além de essencial, é entre os existentes o de menor custo tarifário. Pesa menos, mas ainda é um valor que, para quem está desempregado e à procura de emprego, ou assalariado, é caro.

Por falar do preço das passagens, não é por ser o transporte de menor valor tarifário que este tipo de serviço prestado tenha que ser tão ruim como temos visto, sobretudo no que diz respeito aos constantes atrasos e as condições das plataformas nas estações e dos carros. Um serviço que desde a recepção, o embarque e a chegada ao destino é visto como uma tortura ao usuário.

Já escrevi que quem precisa se deslocar bem cedo e depende dos trens, em horário de rush, vive na incerteza se chegará ao destino em tempo hábil ou tempo presumido. É necessário se antecipar e sair mais cedo para compensar os atrasos constantes que viraram rotina. O triste é que estamos vendo, dia após dia, o sucateamento desse sistema de transporte que atende principalmente a faixa do trabalhador assalariado. Um serviço que, não é de agora, além de não oferecer confiança quanto ao cumprimento dos horários, virou uma espécie de tortura pelas condições.

Enquanto não olharmos atentamente para os transportes coletivos e cobrar melhorias no transporte ferroviário, estaremos sujeitos a deixar que a grande massa que ergue essa nação seja transportada por um serviço que parece estar à deriva. Não é a primeira vez que abordo sobre esse sucateamento do sistema de transporte de trem.

Em Brasília é necessária uma discussão bem mais ampla sobre a mobilidade urbana. A questão dos transportes ferroviários precisa estar como um tema nessa pauta nacional. Temos que buscar meios de incentivar mais investimentos nessa área sob pena de vermos piorar um modelo de transporte que já carregou em seus trilhos milhões de trabalhadores e que por falta de melhorias está descarrilando.

*Henrique Paes é médico e empresário

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