Junho Ambiental: MPF articula ações para salvar planta nativa da Serra do Tinguá em perigo crítico de extinção

A meta é evitar o desaparecimento definitivo da Sinningia helleri – Foto: Divulgação

O Ministério Público Federal (MPF) tem cobrado medidas e ações urgentes para evitar o desaparecimento definitivo da Sinningia helleri, uma espécie da flora nacional criticamente ameaçada de extinção. Endêmica da região da Serra do Tinguá (RJ) e considerada extinta por 151 anos, a planta foi redescoberta em 2015.

Uma das iniciativas foi uma recomendação, acatada por órgãos do poder público e instituições voltadas ao meio ambiente, com uma série de medidas para evitar o risco iminente de desaparecimento da espécie. Entre as ações estava o registro, identificação e catalogação das espécies, além de medidas de proteção imediata.

A recomendação decorreu de investigação iniciada, originalmente, para apurar intervenções humanas danosas ao habitat da planta e contou com subsídios de especialistas, para discutir possíveis soluções para a questão.

Sob a condução da unidade do MPF em São João do Meriti (RJ), a recomendação reuniu contribuições de representantes da Reserva Biológica (Rebio) do Tinguá, do Jardim Botânico da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e do Instituto Pé de Planta. Os especialistas alertaram que a sobrevivência da Sinningia helleri estava condicionada à fragmentação extrema em pequenas subpopulações isoladas.

Logo após o acatamento da recomendação e o início do plano, os desafios ambientais se intensificaram. Fortes chuvas atingiram a Serra de Miguel Pereira nos meses de fevereiro e março, provocando graves deslizamentos de terra e blocos de rocha justamente no trecho onde se concentram as maiores subpopulações conhecidas da espécie. O desbarrancamento soterrou dezenas de plantas e expôs outras ao risco iminente de morte, alterando inclusive a dinâmica natural de floração da planta.

Em resposta emergencial coordenada e em estrito cumprimento às diretrizes do MPF, cientistas do Instituto Pé de Planta e da UFRRJ realizaram sucessivas incursões de campo sob condições climáticas adversas.

A força-tarefa conseguiu resgatar aproximadamente 30 espécimes muito impactados pelo soterramento, incluindoplanta soterrada.jpg tubérculos e frutos secos contendo sementes viáveis. O material biológico foi transferido para as estufas e laboratórios do Jardim Botânico da UFRRJ, onde já foram iniciados os testes de germinação e transplante de mudas.

Novas ameaças – Relatório técnico encaminhado ao MPF também acendeu um alerta sobre novas ameaças na região. Os pesquisadores relataram o avanço agressivo da espécie invasora Dieffenbachia seguine (comigo-ninguém-pode), que está assoreando o leito dos córregos fundamentais para a hidratação da Sinningia helleri. Além disso, causou preocupação a reabertura de trilhas antigas em áreas que se tornaram unidades de conservação municipais e intervenções de roçada e maquinário pesado conduzidas por órgãos locais sem o devido estudo de impacto prévio, o que pode fragmentar ainda mais os habitats.

Diante do cenário, o MPF estuda novas medidas administrativas para garantir que qualquer intervenção viária ou obra de contenção de encostas na RJ-125 seja precedida de licenciamento e supervisão botânica.

O objetivo é consolidar a rede de proteção integrada entre a pesquisa acadêmica e a fiscalização ambiental, assegurando que o patrimônio genético da Sinningia helleri seja preservado para as futuras gerações.

Espécie que voltou da extinção – Considerada extinta por mais de um século, a planta Sinningia helleri protagoniza um dos casos mais notáveis de redescoberta botânica no Brasil. Descrita em 1825 e conhecida por suas flores brancas e brácteas vermelhas, a espécie desapareceu tanto da natureza quanto do cultivo ao longo do século XX. Após sucessivas tentativas frustradas de localização em seu habitat original, próximo ao Rio de Janeiro, ela foi considerada extinta.

Em 2015, a espécie foi redescoberta graças à colaboração entre pesquisadores. Um botânico suíço divulgou imagens históricas da planta em um fórum especializado, e uma botânica brasileira reconheceu exemplares registrados por ela anos antes em um antigo talude ferroviário.

A descoberta ocorreu em um momento crítico: a área onde as plantas sobreviviam seria desmatada para a implantação de um parque ciclístico. Após a confirmação da espécie, medidas de proteção foram adotadas, permitindo a conservação dos exemplares e a coleta de sementes para programas de cultivo e preservação. A história é considerada um marco para a conservação da biodiversidade e demonstra a importância da proteção de habitats naturais e da atuação conjunta entre ciência e sociedade.

No mês do Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em 5 de junho, a Câmara de Meio Ambiente e Patrimônio Cultural do Ministério Público Federal (4CCR) promove a Ação Coordenada Junho Ambiental. O objetivo é dar visibilidade a projetos, iniciativas e atuações promovidas pelo MPF em defesa dos biomas brasileiros e dos direitos socioambientais das populações, especialmente as mais vulneráveis. Acompanhe todas as notícias no site do MPF.

(Via Ascom/MPF)