MPF pede julgamento de ação por ofensas da Marinha ao legado de João Cândido

Violações à honra da população negra e à memória coletiva estão comprovadas no processo, que dispensa nova produção de provas

João Candido ficou conhecido como Almirante Negro. Ele se rebelou contra os castigos impostos pelos oficiais da Marinha ao marujos negros – Foto: Arquivo

O Ministério Público Federal (MPF) solicitou à Justiça Federal o julgamento antecipado da ação civil pública movida contra a União por ataques da Marinha do Brasil à memória de João Cândido Felisberto, líder da Revolta da Chibata. Em nova petição apresentada no processo, o órgão apontou que os danos morais coletivos já estão demonstrados pelos próprios fatos reconhecidos na ação. O MPF pede que a União seja condenada ao pagamento de R$ 5 milhões por dano moral coletivo.

Segundo o MPF, as manifestações oficiais da Marinha, consideradas ofensivas à trajetória de João Cândido e ao significado histórico da Revolta da Chibata, configuram violação direta à memória coletiva e aos direitos da população negra brasileira. Na manifestação assinada pelo procurador regional dos Direitos do Cidadão adjunto Julio Araujo, o MPF pede a procedência integral da ação, incluindo a condenação da União ao pagamento de R$ 5 milhões por dano moral coletivo e a proibição de novos atos que desabonem a memória do marinheiro conhecido como “Almirante Negro”.

Perseguição contínua — A ação foi ajuizada após a Marinha encaminhar, em abril de 2024, uma carta à Câmara dos Deputados manifestando oposição à inscrição de João Cândido no Livro de Heróis e Heroínas da Pátria. No documento, a Revolta da Chibata foi classificada como “deplorável página da história nacional” e “fato opróbrio”, enquanto seus líderes receberam qualificações negativas.

Para o MPF, essas manifestações representam uma “perseguição institucional contínua” incompatível com a Lei nº 11.756/2008, que concedeu anistia a João Cândido e aos demais participantes da revolta. O órgão sustenta que a legislação não possui apenas caráter jurídico, mas também simbólico, ao reconhecer a legitimidade histórica da luta contra os castigos físicos na Marinha.

Na nova petição, o MPF destaca que o próprio juízo já delimitou como ponto central do processo a análise sobre o impacto das declarações da Marinha “na preservação da memória coletiva e no patrimônio histórico-cultural imaterial do País”. O órgão também argumenta que a insistência em uma visão negativa sobre João Cândido e a Revolta da Chibata representa um processo de “revitimização” que afeta não apenas descendentes do líder revoltoso, mas toda a coletividade negra brasileira.

Dano coletivo – Na manifestação, o MPF reforça que o dano moral coletivo decorre da própria violação a valores fundamentais da sociedade. O texto elenca entendimento doutrinário segundo o qual esse tipo de dano representa “a injusta lesão da esfera moral de uma dada comunidade” e atinge “a própria cultura, em seu aspecto imaterial”.

O procurador Julio Araujo afirma que a responsabilidade da União deve ser reconhecida independentemente de prova de culpa ou demonstração individualizada de sofrimento. O MPF também aponta entendimento do Superior Tribunal de Justiça (STJ) segundo o qual o dano moral coletivo dispensa comprovação de dor ou abalo psicológico individual, bastando a demonstração de ofensa à moral coletiva e aos valores compartilhados por determinado grupo social.

Em manifestações anteriores no processo, o órgão já havia ressaltado que agentes públicos possuem dever reforçado de diligência ao tratar de temas históricos sensíveis ligados à população negra e aos direitos humanos. “As manifestações de autoridades públicas devem se submeter a um cuidado maior com a exposição dos fatos nos quais elas se baseiam, devido ao maior alcance e efeitos gerados na população”, destacou o MPF em réplica apresentada à Justiça Federal.

Levante — A Revolta da Chibata ocorreu em novembro de 1910 e foi liderada por marinheiros, em sua maioria negros e pobres, contra o uso de açoites e as condições degradantes de trabalho na Marinha brasileira. O movimento ganhou força após um marinheiro receber 250 chibatadas, episódio que desencadeou a rebelião comandada por João Cândido Felisberto. Após quatro dias de levante, os castigos físicos foram oficialmente abolidos na Armada.

(Via Ascom/MPF/RJ)