Do comunismo ao patrulhamento de ocasião

Por Elizeu Pires

A palavra comunista vem do latim, comunis, comum, mas o homem se encarregou de deturpar isto, dando-a como nome a uma doutrina política, cujos adeptos pregam que todas as pessoas têm direitos iguais sobre tudo, ignorando a propriedade privada, com o estado tutelando tudo em favor de todos. Só que, na prática, não é bem assim. Nos países onde tal doutrina ainda impera uns são mais "iguais" que os outros quando se trata de dividir o ouro, com os líderes do sistema tendo direito a tudo e o povo a nada. Vide Cuba, por exemplo. Por lá os Castros desfilam de Mercedes e o povo em sucatas, isto os poucos que conseguiram manter sobre quatro rodas o que sobrou dos anos 50...

A hora do compromisso (Editorial da Folha de São Paulo)

Quem participa da eleição presidencial adere tacitamente a um contrato com a nação. Obriga-se a aceitar o resultado soberano das urnas em caso de derrota e, na outra hipótese, a respeitar a Constituição e os direitos fundamentais ao conduzir o governo. Em meio à crispação do ambiente de campanha e ao estrago desencadeado pela recessão na economia, o aceno a ideias autoritárias requer das duas candidaturas ora mais competitivas algo além da aceitação presumida das regras do jogo, no entanto. Chegou a hora de expressarem compromissos definitivos com a democracia.

Jair Bolsonaro, do PSL, tem lançado suspeição infundada sobre o sistema eletrônico de votação. Estimula paranoias de manipulação, mas apenas para o caso de não ser ele o vencedor do certame.

Os extremistas e o medo das urnas

Preocupa a todo cidadão de bom senso a declaração do candidato do PSL de que é concreta a possibilidade de uma fraude eleitoral em favor do candidato do PT. É de uma gravidade tamanha. Não porque a votação eletrônica possa ser manipulada, mas por sugerir que Jair Bolsonaro e seus iguais não irão aceitar resultado que não seja a vitória. Quando alguém que se propõe a governar o país faz tal ameaça, ainda que velada, nos leva pensar que Bolsonaro, Mourão e Cia. querem é ganhar no grito. Isso é muito sério. É seríssimo. Quem pensa assim está é pregando o poder absoluto, a marcha dos coturnos sobre as cabeças dos defensores da liberdade e revelando o medo terrível que a democracia lhe causa.

Sei que a militância cega vai cair de pau e me chamar de comunista - como assim classifica a todos os que conseguem pensar livremente -, mas não posso deixar de emitir minha opinião. Vi nessa declaração um ato de desespero, reação de quem teme que, no segundo turno, como assim mostram as pesquisas de intenção de votos, o bicho papão lhe engula.

Leia mais, um click contra as ‘fakes news’

De acordo com o Relatório sobre Notícias Digitais do Instituto Reuters – uma das mais importantes pesquisas do mundo sobre o tema – o Brasil é o pais mais preocupado com as noticias falsas, as 'fakes news' que criam um transtorno danado e destroem reputações. Mas e daí? Se analisarmos sem entrar no mérito da questão nos daremos por satisfeitos em saber que 85% dos brasileiros entrevistados demonstram preocupação, mas preocupar-se somente resolve a questão? Claro que não. As notícias inverídicas só têm a proporção que tem no Brasil por causa da preguiça de ler. Em vez de lerem todo o texto muitos param no título, tiram suas conclusões e comentam com o cotovelo. Não leram o "quando, onde, como e por que", mas já formaram opinião. 

Os que assim procedem são presas fáceis para os propagadores de mentiras como aquela que diz que a vereadora Marielle Franco teria sido casada com um traficante, o que mais que uma tentativa de desqualificar a voz que as minorias tinham na Câmara do Rio, foi um ataque a honra, uma mentira gratuita e fatal.

Por que temem tanto este homem?

"Vou entrar de cabeça erguida e sair de peito estufado" (Luiz Inácio Lula da Silva)

Quando, no dia 4 de março de 2016, o juiz Sergio Moro determinou, ao arrepio da lei, a condução coercitiva do ex-presidente Lula, eu dizia a um grupo de amigos com os quais almoçava em Macaé, que o Judiciário estava fabricando um herói. Não deu outra. Iniciou-se a comoção que torna o ex-metalúrgico imbatível nas urnas. Agora Moro voltou a dar um empurrão a favor de Lula, quando, com pressa em prendê-lo, pisou mais uma vez no devido processo legal, pois a ação ainda não transitou em julgado nem na segunda instância. Ao expedir o mandado de prisão numa ação na qual o ex-presidente foi condenado sem provas, na base da convicção do magistrado e do achismo conveniente dos "meninos de ouro" do MPF, o Judiciário externa que os que querem dominar o paí no grito estão é morrendo de medo de um operário que conquistou o mundo.

Coisas dos tempos de ‘Brasil, ame-o ou deixe-o’

Os extremistas jamais vão falar sobre isso, mas no período da ditadura militar, o cidadão que saísse às ruas sem levar no bolso a carteira de trabalho assinada era detido e autuado por vadiagem; a inflação chegava a 80% ao mês, faltava alimentos nas prateleiras dos supermercados e havia racionamento de gasolina. Criticar o governo? Nem pensar! Isso era crime grave pois - assim como os jornais não podiam noticiar escândalos, muito menos denunciar a truculência e os torturadores que povoavam os porões dos quartéis - as manifestações públicas eram proibidas. Os militares controlavam tudo com mão de ferro. Omissos, os integrantes do Ministério Público e do Poder Judiciário não davam um pio, pois se borravam de medo dos generais. Era assim nos tempos do "Brasil, ame-o ou deixe-o", os calabouços, fuzis e baionetas...

Creio que nada disso importa à militância que aplaude os Bolsonaros da vida e defende uma intervenção militar. Ignoram que se os militares estivessem no poder, hoje eles não saberiam nem o que é rede social, pois numa ditadura é proibido até pensar, quando mais expressar opinião contrária ao regime. Quem se lembra daquela propaganda ufanista que soava mais como ameaça do que outra coisa? O slogan 'Brasil, ame-o ou deixe-o' era estampado em todos os lugares, até nas escolas. Era o mesmo que dizer: "Não concorda com o regime? Então caia fora".